Bernard Tschumi / Bruno Roberto Padovano

1. Introdução.

Parque de La Villette, Arquiteto Bernard Tschumi
Foto AG

Bernard Tschumi: arquitetura é forma do conhecimento
Patricia Bertacchini

Em visita ao Brasil, Bernard Tschumi apresentou uma palestra na FAU-USP, em São Paulo, em 22 de junho de 2001. Após a palestra, o arquiteto foi entrevistado exclusivamente pelo bolEtimIDEA. (1)

Na ocasião, Tschumi lembrou que, para ele, "a arquitetura não é o conhecimento da forma; mas sim, uma forma de conhecimento". Dizendo-se desinteressado nas questões meramente formais da arquitetura, Tschumi questionou a relação entre a arquitetura e o programa – entre o espaço e seu uso. Discutindo que não há nenhuma arquitetura sem evento e sem programa, o arquiteto traz, em seus projetos, os interesses programáticos e formais dentro do discurso arquitetônico e da sua representação – o que chama de notação arquitetônica. (2)

Para o arquiteto, todas as seqüências arquitetônicas (referentes ànotação arquitetônica), implicam em, ao menos, três relações: primeiramente, uma relação interna com o método do trabalho; uma segunda que trata da justaposição de espaços reais; e uma terceira relação, que é referente ao desenvolvimento do programa. Estas relações dependem da interação entre os três níveis da experiência arquitetônica: o evento, o espaço e o movimento.

O evento é definido, pelo arquiteto, como um incidente, uma ocorrência – o item particular em um programa. Os eventos podem abranger usos particulares, funções singulares ou atividades isoladas. Incluem momentos da paixão, dos atos do amor e do o instante da morte.

Dentro deste conceito, o espaço é um estado mental. Categoria do a-priorida consciência definida por Kant. Talvez a forma pura, ou um produto social: a projeção no âmbito da estrutura sócio-politica.

O movimento é a ação ou o processo, e ainda o ato ou uma maneira particular de mover-se – que em um poema ou em uma narrativa, configura um progresso ou incidente, como o desenvolvimento de um lote. Segundo Tschumi, o movimento, na arquitetura, é a qualidade de ter a abundância do incidente.

O arquiteto demonstrou que os eventos e o movimento são fatores independentes, mas que se relacionam de modo que os componentes arquitetônicos são desconstruídos e reconstruídos, configurando sempre novas relações.

A Notação, segundo o arquiteto, é um elemento tríptico, em sua arquitetura (é introduzir a ordem da experiência, a ordem da hora – movimentos, intervalos, seqüências – tudo implica, inevitavelmente, na leitura da cidade). Esta notação é, também, reflexo de uma necessidade em questionar as modalidades da representação usadas geralmente por arquitetos, como plantas, cortes, axonométricas, etc.

Na abordagem da notação arquitetônica, de acordo com Tschumi, ocorre uma inevitável disjunção entre o uso, a forma e os valores sociais: a circunstância. Quando esta circunstância se transforma em um confronto arquitetônico, o resultado é uma relação inevitável de prazer e violência – referentes aos eventos.

A Articulação, em sua obra, é uma acumulação aleatória destes eventos. A principal característica da articulação é a seqüência – definida como uma sucessão composta por cenários que confrontam espaços, movimentos, e eventos – cada uma com sua própria estrutura combinante.

Os componentes arquitetônicos, porém, nunca tentam, em sua obra, transcender as contradições entre o homem, os eventos e os objetos; mas, buscam trazê-los à uma nova síntese caracterizada por uma relação dinâmica, de reciprocidade ou conflito.

Este referencial teórico se reflete em sua obra, da seguinte maneira: segundo o arquiteto, o prazer da arquitetura é concedido quando esta arquitetura cumpre suas expectativas espaciais, sendo capaz de incorporar idéias e conceitos, com inteligência e invenção. O prazer é, então, resultante dos conflitos. Segundo o arquiteto, "o projeto do Parc de la Villette pode assim ser visto para incentivar o conflito sobre a síntese, a fragmentação sobre a unidade, a loucura e o jogo sobre a gerência cuidadosa. Este projeto subverte um número de ideais que lhe eram sacrificados no período moderno – desta maneira, pode ser aliado a uma visão específica de pós-modernidade". (3)

Seus projetos atuais demonstram uma preocupação em interagir, neste contexto, o evento, o movimento, e agora, o terceiro fator: as forças(agora forças como articulantes do espaço – e não mais somente o espaço). Esta ênfase para as forças adquirem seu ápice de exploração projetual no Alfred Lerner Hall, Universidade de Columbia, onde as rampas de circulação adquirem até mesmo um caráter simbólico, referencial do projeto; e no Performance Hall and Exhibition Center, que é um espaço livre, resultante da articulação intra-fluxos.

2. Conceitos.

Parque de La Villette, Arquiteto Bernard Tschumi
Foto AG

Bruno Padovano: O senhor é considerado um dos líderes de um movimento de grande importância para a arquitetura, que foi chamado desconstrutivismo, na década de 80. Como você definiria sua posição neste movimento?

Bernard Tschumi: Em 1988, houve uma intervenção no Museu de Arte Moderna, envolvento sete arquitetos. Cada um destes arquitetos estavam explorando maneiras de re-conceituar a arquitetura, desconstruindo os processos formais até então utilizados. Alguém, muito esperto, falou: "vamos fazer uma exposição, e vamos tentar achar um título", e o título ficou Deconstrutivismo. Mas nunca houve um movimento. Cada um dos sete arquitetos estavam explorando a desconstrução tanto da forma quanto do contexto idealizado, por trás desta forma, de uma maneira diferente – e continuam, cada um à sua maneira, com seus diferentes embasamentos conceituais, o que reflete na diferença da leitura, das relações espaciais encontradas nas obras de cada um dos sete.

BP: A próxima questão é sobre "O arquiteto como a materialização de um conceito". Poderia dizer algo sobre como o senhor faz este intercâmbio – do conceito ao projeto, ao desenho. Qual é a relação entre ambos?

BT: Existe uma quantia enorme de arquitetos, especialmente no país onde passo grande parte do meu tempo – América – que começa a projetar através de uma forma que se inicia através de uma imagem do passado, e muitas vezes permanece como uma referência estática. Então eles reproduzem colunas dóricas, ou ainda conceitos formais de Le Corbusier. Eles fazem uma arquitetura de "papier-marchê", que vem da lógica construtiva do material que eles nunca utilizaram.

Eu sou antagônico ao uso da forma como imagem pura. Eu vejo uma correlação direta entre o conceito, o material, e os resultados finais. E esta é uma abordagem um pouco mais complicada, porque atualmente, a noção de relação direta entre o material e o que se faz com ele tem sido mais uma questão de uso de novos softwares – um computador é quem acaba decidindo o que pode ser feito ou não, espacializando matematicamente – sem referências à lógica do material.

Considero que a concepção de uma inspiração que reúne idéias, tecnologia, materiais e intercâmbios.

BP: Isto tem a ver com o Paradigma da Complexidade, que as pessoas estão tanto falando, nos dias de hoje?

BT: Não necessariamente pode ser a idéia central. Em outras palavras, a arquitetura assume uma complexidade, por definição, se ela é o reflexo, também, das atividades, dos movimentos dos corpos no espaço, dos sons, das forças...é inevitavelmente complexa – e não tem nada a ver com a complexidade da forma.

3. Escritório.

Parque de La Villette, Arquiteto Bernard Tschumi
Foto AG

Bruno Padovano: Neste campo cultural, como as questões urbanas, em seu escritório, se inserem neste trabalho que o senhor está desenvolvendo?

Bernard Tschumi: Em não lido com políticos. Então nossos projetos advém de concursos.

Temos um pequeno escritório, com vinte uma média de pessoas, em dois locais – Nova Iorque e Paris – e costumo dizer que os pequenos escritórios são os que fazem as grandes obras. E isto inclui desde os desenhos para grandes áreas urbanas, até grandes e complexos edifícios.

A razão pela qual fazemos edifícios culturais é porque as pessoas querem que o façamos – mas eu adoraria fazer casas, fazer garagens...

BP: Como é o trabalho dentro de seu escritório – como se dá a participação da sua equipe?

BT: Existe um arquiteto ou arquiteta principal, sempre administrando um projeto, Porém, eu estou sempre envolvido com cada um dos projetos, e com cada pessoa envolvida em um projeto. Esta é a razão pela qual eu insisto em manter meu escritório deste tamanho.

BP: Sobre sua atuação como professor universitário, isto tem dificultado ou facilitado sua prática da arquitetura? Seu escritório lhe toma grande parte do tempo, então como tem coordanado as duas práticas?

BT: De certa forma, tem facilitado, senão não estaria interessado na universidade. Estou sempre interessado nos eventos das idéias – as polêmicas que são levantadas na universidade. Estaria chateado se estivesse envolvido somente com o ambiente do escritório.

Parque de La Villette, Arquiteto Bernard Tschumi
Foto AG

Bernard Tschumi

Diretor da Faculdade de Arquitetura na Universidade de Columbia desde 1988, o arquiteto europeu Bernard Tschumi é conhecido internacionalmente pelo seu projeto para o Parc de la Villette, em Paris, que é geralmente referido, pelos críticos de arquitetura, como um dos primeiros exemplos do deconstrutivismo. Tschumi foi professor, na década de 70, na Architectural Association, em Londres; lecionou também no Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos em Nova Iorque, e na Universidade Princeton. De 1980 a 83, foi professor visitante na Cooper Union School of Architecture, em Nova Iorque. Em 1985, o arquiteto organizou a exposição "A Space, a Thousand Words", que originou, mais tarde, a produção de "Manhattan Transcripts"- colagens e desenhos sobre os quais o arquiteto publica seus primeiros ensaios sobre a notação arquitetônica.

Bruno Padovano

Arquiteto e diretor da Padovano e Associados Arquitetura S/C Ltda. É também professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e diretor presidente do IDEA, Instituto para o Desenho Avançado

Patrícia Bertacchini

Arquiteta, professora das Faculdades de Arquitetura e Urbanismo da Uninove e Universidade Mackenzie e Diretora do IDEA, Instituto para o Desenho Avançado

Entrevista

Bernard Tschumi foi entrevistado pelo arquiteto Bruno Roberto Padovano após palestra proferida na FAU-USP, em São Paulo, em 22 de junho de 2001. A entrevista foi originalmente publicada no bolEtimIDEA, edição nº 06, ano 01, junho de 2001. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em outubro de 2001.

Websites

Oficial do escritório www.tschumi.com

Tschumi sobre Le Fresnoy www.archined.nl

Croquis e arquivos sonoros com a explicação do arquiteto sobre a obra Manhattan Transcripts www.cornishproductions.com

Debate Visões do Futuro com Bernard Tschumi e Rem Koolhaas, em L´A Monde, 1997 www.alsapresse.com





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