MODA É DESIGN?

O Tempo é a medida de todas as coisas”

Paul Smith

Sandália Egípcia em fibras vegetais

Moda é design, perguntam-me?


Sim. Moda também é design, eu respondo às pessoas que me questionam. Os termos se confundem. Moda é um uso ou hábito, geralmente aceito, variável no tempo e resultante da mistura de influências culturais do meio. Nela, além do vestuário, incluem-se itens tão fundamentais como; sapatos, óculos, jóias e adornos em geral – os acessórios. Estas áreas são alvo da idealização e criação do profissional chamado designer, no caso, estilista ou ainda, designer de moda.


É através da análise da criação e uso dos acessórios, especificamente, sapatos e bolsas, que se desenvolve este artigo, baseado num trabalho de pesquisa e criação de uma coleção de sapatos e bolsas, para o Outono e Inverno de 2005/2006, produzido em Milão, em 2004, no Departamento de Moda do Istituto Europeo di Design (IED), cujo tema foi “Ontem, Hoje e Amanhã”, por mim dedicado à Joana D’Arc. Heroína de “ontem”, interpretada “hoje” e desenhada para o “amanhã”.


Sem voltar demais na história dos calçados, pois ela é longa, o primeiro tipo de calçado a ser criado foram as botas de pele, datadas do período paleolítico superior (cerca de quatorze mil anos). No 4º milênio a.C. as primeiras civilizações mesopotâmicas e egípcias desenvolveram três tipos de calçados: o sapato, a bota e a sandália. Os calçados surgiram para proteção dos pés; as bolsas para carregar objetos. Somente a partir da Antiguidade que o sapato adquire uma função estética e ornamental. Nos Estados Unidos, os primeiros sapatos eram executados de forma artesanal e individual pelos próprios fazendeiros. Aos poucos, com a prática, estes artesãos foram formando seus próprios workshops. Em Massachusetts, por volta de 1750, iniciaram uma pequena linha de produção, quando então apareceram as primeiras máquinas. Na França, o processo foi o mesmo. Já na Inglaterra, somente no final do século XIX, a execução manual cedeu lugar à produção industrial. Em 1914, Salvatore Ferragamo, renomado designer italiano de sapatos, emigrou para a América, na Califórnia, levando sua capacidade criativa e artesanal, para trabalhar com artistas de Hollywood.

Sapato do estilista Roger Vivier

Atualmente, existe uma nova geração de designers de sapatos europeus e americanos, tais como; Manolo Blahnik, Joan Halpern, MaudFrizon, Beth e Herbert Levine, Jimmy Choo e Christian Louboutin, entre tantos famosos. Produzem sapatos que são considerados verdadeiras obras de arte – objetos de design que transcendem, em muito, suas funções originais. É bom lembrar que, por trás das grandes Maisons de alta costura como; Gucci, Fendi, Dolce e Gabbana, Prada, Versacce, Hermès, Christian Dior e Chanel, existem designers dedicados e exclusivos como, Corto Moltedo, que vem, há anos, trabalhando na grande marca Bottega Veneta, pertencente aos seus pais.


Com a passagem do mito funcionalista, da época modernista, para tempos mais “pós-modernos”, como dizia Ettore Sottsass, o design é visto mais como um gesto cultural, no sentido antropológico, do que racional e tecnológico. É aqui que entra a Semiótica – o design como ato linguístico que comunica coisas que não se limitam aos mecanismos técnicos e funcionais. Na hiper modernidade,conjectura Lipovetsky, o design se alimentará da hiper tecnicalidade e o desejo será deturpado de seu sentido primordial em favor de uma“vontade da vontade”, uma dinâmica de poder que se auto alimenta, sem outra finalidade a não ser o seu próprio crescimento.


Ainda hoje, os consumidores necessitam e desejam sempre novos produtos e manifestam exigências sobre os aspectos de função de uso: técnicas, ergonômicas, formais (gestalt) e psicológicas (belo, luxo, status, fetiche, identificação, coleção, mistério,posse, ciúme). Procuram pela individualidade e pela série restrita, mesmo que esta não ocorra. Moda/Design, portanto, como já provara Baudrillard, tem uma dinâmica psicológica. Consumidores desejam, porque o desejo vem da falta, da frustração, e daquilo que o filósofo Schopenhauer chama de sofrimento. Quando o desejo é satisfeito, já não há mais sofrimento nem falta, mas não há felicidade, pois o desejo esvaiu-se e a isto chamamos de tédio.

Sapatilhas do estilista Valentino Garavani

Nesta roda viva, o consumidor vai preenchendo suas carências nacompra renovada e infinita.

Designers têm como missão criar sob novos paradigmas, incluir em seus produtos a aplicação de uma visão humanista, cultural e psicológica como fatores de diferenciação, para a geração de alternativas projetuais e, assim, agregar valor ao objeto.



Os designers/estilistas devem verificar o que significa o belo e o luxo. Devem analisar o porquê da necessidade de status, do culto ou do fetiche de certos objetos, do segredo no lançamento de novas coleções. Einstein, certa vez, disse que a coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério, pois ele é a origem de toda arte e ciência verdadeiros. A moda como o design, simbolizam ir ao encontro desta aventura misteriosa.


O belo, segundo Kant, não é nem uma ideia em si, nem uma ideia no objeto, nem um conceito objetivamente definível, nem uma propriedade do objeto. O belo é, sim, uma qualidade que atribuímos ao objeto para exprimir a experiência de certo estado de nossa subjetividade, atestada pelo nosso prazer.


A posse, ligada ao consumo, vem da paixão pelos objetos. O ato de emprestarmos determinada coisa, por exemplo, corresponde a uma doação narcisista de parte do eu. Caso esta doação seja perdida ou deteriorada, pode significar a castração do indivíduo. Ninguém empresta seu falo, dizia Baudrillard. O consumidor agarra-se à vida por meio da posse dos objetos, os eles asseguram a sua continuidade. O desejo de possuir, cada vez mais, se relaciona com o desejo de viver eternamente.


A Moda é movida pelo desejo constante do novo, do belo, do luxo e da individuação. Nela, o luxo simboliza qualidade. Ela induz ao status, quando usamos uma determinada marca para demonstrar a qual ranking social pertencemos. Ela induz, igualmente, ao mito e ao fetiche. O fetiche por sapatos, por exemplo, é identificado pela psicanálise como o objeto que substitui o pênis que falta à mãe ou, ainda, como significante fálico.

Sapatilha Zaha Hadid para Melissa

Ultimamente, temos visto o fenômeno da democratização do luxo. Nele inclui-se o fast-fashion (produção rápida e contínua de novidades, gerando aumento de faturamento), lançado por empresas europeias como a Zara, Benetton e H&M e seguido por outras nacionais.


Na área dos acessórios, da qual falamos, a alta tecnologia permite esta democratização coma mimetização de materiais, tais como; peles de animais (crocodilo,serpente, tigre, leopardo, etc.), ferragens plastificadas, bordados à máquina, revestimentos de saltos imitando madeira e afins. Encontramos peças ersatz 1, espalhadas pelo planeta. Mais “luxo” e menos LUXO - é ozeitgeist 2!


Assim, na moda/design, as coleções nascem, morrem e renascem num eterno fluxo de interpretações. Estruturar para desestruturar. Construir para desconstruir. Paul Smith, cavaleiro do império britânico, certa vez, disse que o tempo é a medida de todas as coisas. Ele é, portanto, o único item de luxo que, de fato, se pode pensar. É, neste contexto, que a Moda/Design nunca sairá de moda,porque o homem que a cria busca pela eternidade.



Créditos:


Autora:Suzana M. Sacchi Padovano

Ilustração:Suzana M. Sacchi Padovano



Bibliografia:


Baudrillard,Jean. O sistema dosobjetos. SãoPaulo: Perspectiva, 1968.


Bossan,Marie-Josèphe. L’Artde la Chaussure.New York, USA: Parkstone Press Ltd, 2004


DicionárioEnciclopédico de Psicanálise – O Legado de Freud e Lacan.Editado por Pierrre Kaufmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora,1996.

1 Artificial, substituto inferior.

2 Espírito do tempo.





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