O Fetiche do objeto antigo

Como o próprio título infere, o objeto antigo possui um fetiche. Este artigo discursa sobre este conceito relacionando-o à Freud e suas indicações sobre a regressão ao seio maternal. Fala também dos arranjos das mobílias nos espaços contemporâneo se como interpretá-los, mostrando sua função utilitária e simbólica.

Abstratct.

Sobre a ambiência contemporânea. Significado dos objetos antigos e modernos naconfiguração espacial residencial. Reflexões sobre o arranjo do mobiliáriocontemporâneo.

Folheando revistas de arquitetura e decoração, pode-se observar como se configura o mobiliário atual. A leitura que fazemos desta conformação, inclusive espacial, nos fornecerá a imagem das estruturas familiares e sociais de nossos dias.Percebe-se que na sua grande maioria, os espaços contemporâneos ainda permanecem separados e unifuncionais tendendo a uma utilização específica das diversas funções familiares. O espaço para cozinhar, para comer, para receber visitas,para dormir, para a higiene. Estes tendem a ser bastante preenchidos e em muitos casos vê-se a acumulação barroca com tinturas museológicas. Entretanto, percebe-se o recente surgimento de novas estruturas espaciais abertas e mudança nas relações do indivíduo com a família e sociedade. São chamados espaços multifuncionais – Lofts.

Espaços multifuncionais contemporâneos | Lofts

Os móveis e objetos decorativos se olham e estabelecem um diálogo, muitas vezes mais simbólico do que funcional. Esta estrutura tende a organizar-se em relação à um eixo simétrico, hierárquico, de tradição e ordem, refletindo, igualmente, aspectos afetivos da família.

Espaço de sala de jantar tradicional com cadeiras Luis XVI, animais empalhados, cariátides, candelabro de cristal italiano do século XVIII e outros adornos de diferentes épocas e estilos.
Ambiente com arranjo espacial “barroco” totalmente preenchido | Mobiliário e Objetos. / Ambiente contemporâneo com cama com dossel antigo ladeada por espelhos e acessórios asiáticos.

Ainda há espaço para buffets, armoires, vitrines,camas com dossel, grandes mesas de jantar, espelhos gigantes e imensos candelabros de cristal, entre outras peças. A organização patriarcal burguesa está presente, toda estruturada e fechada em si. Como cita Baudrillard:“domesticam-se as culturas dos objetos técnicos por meio dos objetos antigos”.

Aos objetos domésticos da contemporaneidade, intercalam-se os objetosantigos que podem ser de diferentes épocas e estilos, trazidos por herança ou gosto ereflexo do desejo de permanência e imortalidade, senão pela procura de status e doapelo aristocrático. Livros raros antigos ao lado de aparelhos de som altamentetecnológicos, cabeças de bichos empalhados ao lado de aparelhos de ar condicionadoe por aí seguimos.

Ambiente e quadro contemporâneos com aparador estilo Palladiano. / Ambiente clássico renovado com candelabro de cristal antigo e cadeiras modernas (Design Paul Goldman).
Ambiente e acessórios contemporâneos com sofá Luis XV. / Ambiente contemporâneo estilo neo-clássico com acessórios modernos e poltrona Luis XVI.
Armoir francês, cerca de 1800 com cadeira Luis XV e candelabro de cristal. Reflexo no espelho da cama Luis XV.

Detalhando mais esta afirmação, podemos dizer que o objeto antigo possui uma história. Ele não deixa de ser decorativo nem funcional mas sua maior função é o que ele significa: o tempo. Ele existe na ambiência como signo de nascimento e origem. Busca-se nele o conforto emocional e a certeza da continuidade de nossa existência. Ele seria o equivalente ao confort food.

Baudrillard explora bem este assunto e coloca uma questão fundamental:de onde surge esta necessidade da posse de algo antigo, seja ele um velho móvelde família, um objeto “autêntico” artesanal? Parece que a resposta encontra-sena necessidade de aculturação, seja por parte dos povos desenvolvidos em buscade signos do passado e fora do seu sistema cultural, seja por parte dos povossubdesenvolvidos à procura da atualidade da industrialização e da tecnologia.Tudo resume-se a Cronos - o fascínio pela busca do tempo perdido.

Par de poltronas clássicas Luis XV.

O objeto antigo é auto referente e portanto“autêntico”. Ele permaneceu no tempo. Ele é a prova de sua própria existência,em contraposição ao objeto moderno que existe somente no tempo presente, não tendo ainda adquirido seu status sígnico de mito. O objeto moderno é funcional,prático eficiente ou tecnológico, mas isto não garante a sua existência nos“retratos de família”.

Um ambiente ascético, clean, do tipo monástico, pode ser bonito numa foto mas quando o vivenciamos no dia a dia torna-se árido, descartando memórias e afetos.

(Caverna Branca) I Arq. Kazanawa Takuro.Ambiente minimalista contemporâneo | Casa Toshiro | Arq. Tadao Ando. / Ambiente minimalista contemporâneo | Casa White Cave

Como diz a famosa frase “Freud explica”, o desejo de posse de um objeto antigo relaciona-se igualmente ao colecionismo que por sua vez afilia-se à regressão narcisista. Impõem-se umanecessidade de conhecimento das origens, de ter tido um pai e uma mãe. Esta regressão para as raízes simboliza a volta ao seio materno.

Quantoà autenticidade, ela está ligada ao amor por aquilo que foi criado com a mão,pela singularidade da peça, pela origem da obra, com nome, data e assinatura. Oobjeto autêntico congela o ato criativo em si próprio e pertence não somente aoautor como ao seu possuidor/fruidor.

Escultura de mármore de mulher - cerca de 120 -140 CE. Provavelmente de Kenchreai | Museus Arqueológico de Coríntia Antiga, Grécia.

O fetiche do objeto antigo é ter atributos mágicos ou simbólicos mas somente para quem o possui. É um discurso subjetivo, feito para si próprio,onde se manifesta a angústia pela volta à infância, às origens ou ao útero.

Retrato francês antigo.

Créditos

Autora:Suzana Mara Sacchi Padovano

Data:6/3/2015

Fotos:Pinterest.com

Bibliografia

BAUDRILLARD,Jean. Le système des objets. France:Edition Gallimard, 1968

MOLES,Abraham. Teoria de los objetos.Barcelona: Gustavo Gilli, 1989.

COELH0NETO, José Teixeira. Por uma Teoria daInformação Estética. São Paulo: Monitor, 1973.

Nota do autor

Algunsautores não consideram a palavra estilo apropriada para uso na descrição dosmodelos arquitetônicos.





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